MOVIMENTO FAMILIAR CRISTÃO - CORREIO MFC BRASIL 229
08 DE FEVEREIRO 2010 - SE DESEJAR, RETRANSMITA PARA A SUA LISTA DE CORRESPONDENTES. ESTE É UM PROGRAMA DE EVANGELIZAÇÃO, FORMAÇÃO FAMILIAR, CONSCIENTIZAÇÃO SOCIAL E POLÍTICA DO MFC. APRECIAREMOS COMENTÁRIOS, CRÍTICAS E SUGESTÕES.
Reflexões sobre a Igreja
O jesuíta egípcio mais destacado nos âmbitos eclesial e intelectual, Henri Boulad, lança um SOS à Igreja de hoje numa carta dirigida a Bento XVI. A missiva foi transmitida através da Nunciatura no Cairo. O texto circula nos meios eclesiais de todo o mundo.
"Santo Padre:
Atrevo-me a dirigir-me diretamente a Vós, pois o meu
coração sangra ao ver o abismo no qual se está precipitando
a nossa Igreja. Certamente desculpará a minha franqueza filial, inspirada
na "liberdade dos filhos de Deus" à qual nos convida São
Paulo, e pelo meu amor apaixonado pela Igreja.
Agradecer-lhe-ia também que saiba desculpar o tom alarmista desta carta,
pois creio que "são menos cinco" e que a situação
não pode esperar mais.
Permita-me em primeiro lugar apresentar-me. Jesuíta egípcio
libanês de rito melquita, de 78 anos. Desde há três anos
sou reitor do colégio dos jesuítas no Cairo, depois de ter desempenhado
os seguintes cargos: superior dos jesuítas em Alexandria, superior
regional dos jesuítas do Egito, professor de teologia no Cairo, diretor
de Caritas-Egipto e vice-presidente de Caritas Internationalis para Oriente
Médio e África do Norte.
Conheço muito bem a hierarquia católica do Egito por ter participado durante muitos anos nas suas reuniões como Presidente dos superiores religiosos de institutos no Egito. Tenho relações muito próximas com cada um deles, alguns dos quais são antigos alunos. Por outro lado, conheço pessoalmente o Papa Chenouda III, a quem via com frequencia. E quanto à hierarquia católica de Europa, tive oportunidade de me encontrar pessoalmente muitas vezes com algum dos seus membros, como o cardeal Koening, o cardeal Schönborn, o cardeal Martini, o cardeal Daneels, o Arcebispo Kothgasser, os bispos diocesanos Kapellari e Küng, os outros bispos austríacos e outros bispos de outros paises europeus. Estes encontros acontecem devido às minhas viagens anuais para dar conferências pela Europa: Áustria, Alemanha, Suiça, Hungria, França, Bélgica... Nestas viagens dirijo-me a auditórios muito diferentes e aos media (periódicos, rádios, televisões...). Faço o mesmo no Egito e no Oriente Próximo.
Visitei cerca de cinquenta paises nos quatro continentes e publiquei uns 30 livros em 15 línguas, sobretudo em francês, árabe, húngaro e alemão. Dos 13 livros nesta língua, quiçá tenha "Gottessöhne, Gottestöchter" [Filhos, Filhas de Deus], que lhe fiz chegar pelo seu amigo o P. Erich Fink de Baviera.
Não digo isto para presumir, mas para lhe dizer simplesmente
que as minhas intenções fundamentam-se num conhecimento real
da Igreja universal e da sua situação atual, em 2009.
Volto ao motivo desta carta, intentarei ser breve, claro e o mais objetivo
possível. Em primeiro lugar, umas quantas constatações
(a lista não é exaustiva):
1. A prática religiosa diminui constantemente. As igrejas são
frequentadas por pessoas cada vez mais idosas que vão desaparecer num
prazo bastante curto.
2. Os seminários e os noviciados esvaziam-se de dia para dia e as vocações
desaparecem a um ritmo assustador. O futuro apresenta-se sombrio e não
vemos quem virá atrás de nós para melhorar a situação.
3. Muitos padres deixam o exercício sacerdotal e o pequeno número
dos que vão ficando, cuja idade frequentemente ultrapassa a da reforma,
são obrigados a assumir o encargo de várias paróquias,
fazendo-o de uma maneira apressada
e administrativa.
4. A linguagem da Igreja é anacrônica, aborrecedora, repetitiva,
moralizadora e completamente inadaptada à nossa época. Não
pretendo afirmar que se deve dizer sim a tudo nem adotar uma atitude demagoga,
pois a mensagem do Evangelho deve apresentar-se com toda a sua exigência
e significado. O importante é começar a “nova evangelização”
de que falava João Paulo II. E, ao contrário do que muitos pensam,
ela não consiste na repetição de tudo o que é
antigo e que não interessa a quase ninguém, mas na invenção
duma nova maneira de proclamar a fé aos homens do nosso tempo.
5. Para o conseguir, é urgente uma renovação profunda
da teologia e da catequese que devem ser completamente repensadas e reformuladas.
Infelizmente, temos de constatar que a nossa fé é demasiado
cerebral, abstrata, dogmática e que fala bem pouco ao coração
e ao corpo.
6. A consequência é que uma grande parte dos cristãos
foram bater à porta das religiões asiáticas, das seitas,
da “new age”, do espiritismo, das igrejas evangélicas ou
de outras parecidas. Ficamos admirados? Eles buscam noutro lado o alimento
que não encontram entre nós, pois têm a impressão
que em vez de pão lhes oferecemos pedras.
7. No que respeita à moral e à ética, as imposições
do magistério sobre o casamento, a contracepção, o aborto,
a eutanásia, a homossexualidade, o casamento dos padres, os divorciados
casados de novo, etc., já não interessam a quase ninguém
e provocam nas pessoas cansaço e indiferença.
8. A Igreja católica que, durante séculos, foi a grande educadora
na Europa, esquece que esta Europa se tornou adulta e intelectualmente madura,
recusando ser tratada como uma criança que ainda não atingiu
a idade do uso da razão. As maneiras paternalistas duma Igreja “Mater
et Magistra” passaram de moda e são rejeitadas pela nossa época.
9. As nações que outrora foram as mais católicas deram
uma reviravolta de 180 graus, caindo no ateísmo, no anticlericalismo,
no agnosticismo, na indiferença...
10. O diálogo com as outras igrejas e religiões tem recuado.
O progresso constatado durante meio século está atualmente muito
comprometido.
Perante tais constatações, a reação da Igreja
é dupla:
• Ou considera sem importância a gravidade da situação
e se consola constatando certos fervores e conquistas no campo tradicionalista
ou nos países pobres ou a caminho de um certo desenvolvimento e progresso.
• Ou invoca a confiança no Senhor que a socorreu em muitas outras
crises durante 20 séculos e que vai continuar a ajudá-la também
neste momento difícil.
A isso eu respondo:
• Para resolver os problemas de hoje e de amanhã, não
basta refugiar-se no passado nem apoiar-se em amostras sem fundamento sério.
• A aparente vitalidade da igreja nos continentes em vias de desenvolvimento
é falaciosa. Mais cedo ou mais tarde, essas novas Igrejas passarão
pelas mesmas crises vividas pelo actual cristianismo europeu.
• A modernidade é incontornável e foi por a Igreja ter
esquecido isto que passa hoje por uma tal crise.
• Por que razão continuar uma política como um jogo da
cabra-cega? Até quando recusar ver as coisas como elas são?
Porque é que havemos de tentar salvar as aparências, uma fachada
que hoje não consegue convencer ninguém? Até quando continuar
nesta teimosia, nesta crispação de recusar todas as críticas,
em vez de ver nelas uma ocasião de se renovar? Até quando iremos
adiar uma reforma que se impõe imperativamente e que já tardou
demais?
• Repito o que disse no princípio: é pouco o tempo que
nos fica. A história não fica à nossa espera, sobretudo
numa altura em que o ritmo se acelera e tudo anda tão depressa.
• Qualquer empresa comercial, ao constatar prejuízos ou um mau
funcionamento, põe-se imediatamente em questão, convoca peritos,
tenta recuperar, mobiliza todas as suas energias para se transformar radicalmente.
• E a Igreja? Quando pensa ela mobilizar todas as suas forças
vivas para uma transformação integral? Vai ela continuar dominada
pela preguiça, cobardia, medo, orgulho, falta de imaginação
e criatividade, por um quietismo culpável, convencida de que Deus tudo
vai arranjar e de que a situação atual acabará por ser
ultrapassada como já o foram outras situações, talvez
piores, no passado?
• O que se pode então fazer:
A Igreja precisa de três reformas urgentes:
• Uma reforma da sua teologia e da sua catequese, repensando completamente
a fé e reformulando-a de uma maneira coerente e compreensível
para a sociedade contemporânea.
• Uma reforma da sua pastoral, abandonando as estruturas herdadas do
passado.
• Uma reforma da sua espiritualidade, inventando outra mística
e concebendo os sacramentos de outra maneira, para os encarnar na existência
atual e adaptar à vida do homem de hoje. A Igreja é formalista
demais. Temos a impressão de que a instituição abafa
o seu carisma e de que, para ela, o importante é, ao fim de contas,
a estabilidade exterior, superficial, aparente. Corremos mesmo o risco de
que Jesus, um dia, nos trate “de sepulcros caiados”.
Para terminar, gostaria que houvesse em toda a Igreja um sínodo geral
com a participação de todos os cristãos, católicos
e não só, para analisar franca e abertamente todos os aspectos
de que lhe falei e outros que poderiam ser sugeridos. Esse sínodo (evitemos
a palavra concílio) duraria 3 anos e seria concluído por uma
assembléia geral que faria um resumo de todos os resultados e elaboraria
as conclusões.
Termino, Santo Padre, pedindo-lhe para me perdoar tanta franqueza
e audácia e solicitando a sua bênção paternal.
P. Henri Boulad, s.j.
henriboulad@yahoo.com
Direito Canônico
Cânon 2123: “De acordo com a ciência e prestígio
de que gozam, (os simples fiéis, os leigos) têm o direito e,
às vezes, até a obrigação de manifestar aos pastores
sagrados a própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja
(...) e dêem a conhecer essa opinião também aos outros
fiéis”.
Frases
“Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam,
porque me corrompem”.
"A medida do amor é amar sem medida."
Santo Agostinho
Utilidade Pública
Nova lei de adoção. A lei que estabelece novas regras para adoção,
priorizando o direito da criança e do adolescente à convivência
familiar já está em vigor. "É uma legislação
criada para evitar a burocracia excessiva que hoje dificulta o final feliz
para crianças e adolescentes que necessitam de uma nova família,
e adultos que travam uma luta muitas vezes inglória para adotá-los",
disse o presidente da República, ao sancioná-la.
A lei deve reduzir a longa lista de espera para adoção no país.
Hoje há cerca de 80 mil crianças e adolescentes em abrigos mas
somente 3.500 em condições de adoção. Há
22.500 casais cadastrados para adotar. Fica limitada a dois anos a permanência
em abrigos. Será assegurada assistência jurídica a gestantes
e mães que manifestem interesse em entregar seus filhos para adoção.
